Ponto de partida

 O nascimento de uma faquiresa


- Prólogo - O nascimento 

Primeiro veio a hérnia

Depois cresceu um pé de gente na minha barriga 

O leite escorreu, como um rio, dos seios 

A barriga voltou a crescer, o segundo filho era grande e sugou meu ferro 

O rio de leite voltou a correr

Assim fiquei, por um longo tempo, adaptando os meus desejos incertos, aos limites que apareciam de todos os lados

O corpo como ponto de partida

O que fazer com esse meu corpo tão desconhecido? 

Caminhar, avançar passo a passo carregando a vulnerabilidade no colo, expondo a fragilidade com tamanha intensidade que eles não terão dúvida: é uma faquiresa profissional

Rose Rogé nasceu da fome

Suzy King nasceu a luz do holofotes envolta por muitas cobras 

Eu nasci em atos. 


- Ato 1 - A marreta

em pé com um martelo bem pesado na mão - se não me engano é uma marreta - o peso puxa meu braço direito para baixo e tenho que fazer força para manter o ombro encaixado. a cabeça pra baixo acompanha o olhar que observa a garrafa de vidro enrolada cuidadosamente em um plástico bolha. me aproximo do chão flexionando a perna direita até encostar o calcanhar na bunda, pra isso transfiro o peso para a ponta dos dedos do pé. a perna esquerda segue com o pé firme no chão e o joelho fica mais ou menos num ângulo de 90 graus. a mão esquerda busca um apoio no joelho esquerdo enquanto a mão direita, sustentando o peso da marreta, levanta o braço esticado em direção ao teto. sinto o peso da marreta e deixo que ele conduza o movimento. diferente de todos os gestos feitos até agora o movimento que se segue é rápido. a gravidade puxa a marreta e o braço pra baixo com velocidade e um ódio particular. ela se choca contra o vidro envolto no plastico bolha. o barulho é estridente e anuncia a rachadura. o movimento se repete mais duas vezes. agora o barulho é de vidro estraçalhado. o plástico conteve os cacos que não puderam, como de costume, voar para todos os lados na hora da ruptura. respiro e descanso a marreta no chão. os olhos seguem paralisados naquele objeto agora sem forma. já não há mais garrafa apenas os restos do que foi um dia. com satisfação levanto, empurrando o peso do meu corpo contra o chão, olho pra frente e com passos firmes me afasto.


- Ato 2 - Mal presságio 

Muitos legos espalhados no chão, um suspiro antes do primeiro passo: 

Inevitável não pensar nas crianças 

inevitável o riso das mães e dos pais que conhecem essa sensação

inevitável o desejo de caminhar ao lado dos legos e não sobre eles

inevitável o desespero de saber que essa é apenas a primeira de muitas travessias

inevitável os suspiros que se acumulam a cada passo 

inevitável não seguir em frente 

inevitável não sentir dor 

   

- Ato 3 - Aquilo que foi um dia 

Aquilo que foi um dia hoje é ruína. A lembrança não é foto. Ela não registra a realidade, ela levanta paredes, decora ambientes e enfeita jardins na memória. Para caminhar sobre cacos de vidro os olhos precisam se agarrar em uma dessas imagem que construiu casa em min. A respiração lenta e cautelosa mantém o corpo presente contendo o tremor que sobe pelas solas dos pés até o topo da cabeça. Os estalos do vidro que vai se partindo a cada passo fazem meu corpo ter pequenos sobressaltos, que precisam ser contidos. O barulho, persistente e delicado, aumenta o contraste e denuncia a sensibilidade do vidro. Cacos ameaçadores cheios de pontas chorando. 


Os olhos se agarram na memória.  


Eu queria chorar como os cacos. Me contenho. O choro retido se torna uma gargalhada exagerada que sempre encontra uma cúmplice desconhecida na plateia para rir alto junto comigo. Como duas adolescentes que precisam apenas de uma troca de olhares para uma risada incontrolável. Uma euforia quase sempre repreendida. Caminho agora com certa leveza, ri de si mesmo é um bom remédio para dores pontiagudas. A gargalhada é interrompida por um suspiro longo. Os pés param. As mãos vão para o chão, sentem a textura fria e lisa do vidro e encontram um lugar entre aquelas ruínas de garrafas. Com a mão toda espalmada no chão transfiro o peso para a ponta dos dedos e sinto os pedaços de vidro que ficaram ali entre a pele e o piso. 


Os olhos se agarram na memória.  


Equilibrando o peso do corpo nas mãos levanto as pernas afastadas para o alto lentamente. -  eventualmente pode se ver um pedaço de vidro fincado no metatarso -  A respiração lenta e cautelosa mantém o corpo presente e contém o tremor que, dessa vez, sobe pelas palmas das mãos até a ponta dos pés. O equilíbrio é instável, ele fica entre o dedo indicador e o dedão da mão. Os pedaços de vidros insistem contra a pele sem cortá-la mas se afundam na carne deixando uma marca que levará, quando eu já estiver de pé, alguns minutos para desaparecer.  Desço as pernas bem juntinhas em um ângulo de 90 graus e formo com o corpo a imagem de um 7. Sustento essa posição por alguns segundos até que cedo ao peso das pernas. Os pés caem com velocidade no chão repleto de cacos. Levanto rapidamente


Os olhos agora encaram o público, já somos íntimos.


- Ato 4 - Baratas 

Minha mãe tem pavor de baratas. Sempre que há uma presente ela faz um escândalo e grita frases de ordem para quem estiver por perto que mate aquele ser, que ganha proporções monstruosas nas suas descrições. Não se parecem nem de longe com as baratas de Adília Lopes. Certa vez fui socorrê-la no banheiro. Do ralo brotaram muitas baratas bêbadas de inseticida. Elas subiam nas minhas pernas, tentavam voar e caiam em mim. Invadiram pra sempre minhas narinas com um mal cheiro peculiar. Paralisada pelo terror, minha mãe me fechou no banheiro. Fiquei ali trancada eu e elas. Minha arma, um chinelo, uma batalha perdida. 


Hoje mato, com os pés descalços, as 36 baratas posicionadas em linha reta no centro do palco com um prazer indescritível. O barulho crocante das cascas esmagadas me lembra a suculência de um aipo fresco. Uma a uma elas vão grudando na sola dos meus pés. Calço 34, tenho pés pequenos, herança da minha vó. Rapidamente não há mais espaço para as próximas baratas que precisam ser esmagadas com a mesma intensidade que as primeiras. Uma crueldade justa. Passo então as mãos na sola dos pés e retiro os cadáveres para abrir espaço na superfície. Sigo adiante e vou novamente acumulando as baratas mortas na sola dos pés. Já sem espaço nos pés e nas mãos para armazená-las, coloco as mãos cheias no chão e subo as pernas para o alto. Aqui o movimento é rápido e contínuo, não requer cautela. Esfrego um pé no outro como quem lava as mãos antes de uma refeição. Mortas as baratas caem para todos os lados. Flexiono os braços, olho pra frente e faço uma espécie de cambalhota, matando no dorso das costas as últimas  baratas que restavam. De pé olho para as mãos e me lembro de Clarisse e GH e tenho imediatamente uma vontade de comer a barata.


- Ato 5 - Calor invasivo 

No começo eu busquei truques para evitar as queimaduras. Passei cremes refrescantes, colei band aids, esparadrapos e passei gelo nos calcanhares. Essas tentativas de evitar o inevitável desestabilizava os passos no momento da caminhada sobre as velas acesas. As  ideias buscavam, enquanto eu caminhava, novas estratégias mirabolantes para os próximos passos. Todas falharam. 


Repetir, repetir - até ficar diferente

repetir é um dom do estilo. 


Manoel de Barros nunca falhou. O truque é a repetição. 


O fogo sempre queima. O calor invadiu meu corpo pelos calcanhares e dilatou os vasos sanguíneos deixando meu rosto ruborizado e causando imediatamente aquele constrangimento de bochechas rosadas. Assim nasceu uma bolha bem no centro dos meus calcanhares. Já ouvi dizer que esse é o ponto do útero. Parece que nos pés há um mapa do corpo todo. A partir deles podemos estimular o parto, o rim, o fígado. Ouvi isso nos muitos anos de tratamento da hérnia na acupuntura. No consultório me disseram muitas vezes que era retenção de vento e outras tantas que era o calor excessivo invadindo os meridianos. Eu não sei nada sobre ventos retidos ou calores invasores. Recebia aquelas agulhas como um carinho que curava dores. 


A pressão do pé que sustenta o peso do corpo sobre legos jogados, cacos pontiagudos, ou apagando a chama de velas com calcanhares não lembra em nada as agulhas da acupuntura. Parece mais com O Riso da Medusa


- Hélene, esse é o meu movimento, texto escrito na história e no mundo para falar de ventres fecundos, de mulheres piratas e de avós heroínas.


Ato 6 - Antitetânica 

Nos pregos os passos são precisos e rápidos. 

A próxima caminhada diante dos olhares atentos do público. 

Não há tempo para devaneios nessa travessia.

O ferro é mudo e diferente do vidro parecem insensíveis a minha dor. 


Ainda era criança quando furei meu pé com um prego grande e grosso. Doeu tanto que sentei imediatamente. Sentei e furei a bunda com outro prego. Tive que ir ao hospital às pressas depois de uma mentira mal contada na tentativa de justificar à minha avó o que eu fazia aos 6 anos de idade em um canteiro de obras abandonado. 


Não tenho tempo para lembranças nessa travessia. 

O prego que me feriu e me levou ao hospital é o mesmo prego que hoje aguarda meus passos no centro do palco.


Não tenho tempo para piadas sem graça ou vingança sem sentido nessa travessia.

Mas a lembrança me faz rir e me enche de uma satisfação tão muda quanto o prego. 


Era uma premonição, talvez? 


- O grande final - Chuva de confete

Na sala da minha casa, na parede branca acima do sofá, há muitos quadros. No canto esquerdo, apoiado sobre o frigobar vermelho tem um quadro com moldura também vermelha. Diferente dos outros esse não está pendurado por pôr um prego. - talvez por um ato de rebeldia ou simples acaso do destino - 


No quadro vemos ao fundo o cenário do espetáculo, em primeiro plano eu jogando confete para o alto. Atravessei todos os atos com aqueles confetes guardados no bolso do short. A chuva de confete marca o ápice do espetáculo. Ela coroa a cena. É o laço de fita do embrulho de presente, a cereja do bolo. Lanço os confetes para o alto abrindo os braços e um sorriso sincero. Eles caem lentamente sobre mim arrancando doces suspiros da plateia. 


Esse quadro tá ali sussurrando para os que sabem ler nas entrelinhas, que atravessei oceanos, movi montanhas, dei o passo maior que as pernas e abracei o mundo com elas. 

A vida não é espetáculo, as violências foram muitas a fatura da analista é cara mas a foto, como diria Annie Ernaux, é o retrato da realidade. 


Uma faquiresa pronta para os aplausos. 


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